Corrida aos Depósitos a Prazo Bate Recorde em Portugal
Os portugueses nunca guardaram tanto dinheiro em depósitos bancários. Os números mais recentes do Banco de Portugal confirmam uma tendência que já dura vários meses: uma verdadeira corrida aos depósitos a prazo, impulsionada pela procura de segurança financeira num contexto de juros ainda atrativos e incerteza económica.
Mas há um lado desta história que poucos bancos destacam nos seus anúncios: uma parte significativa desse dinheiro está, na prática, a perder valor.
Os Números da Corrida aos Depósitos
Os depósitos das famílias portuguesas atingiram 202,6 mil milhões de euros em abril de 2026, um crescimento de 4,9% em apenas um ano — acima da média da Zona Euro, que ficou nos 3%.
Este aumento reflete-se tanto em contas à ordem como em depósitos a prazo propriamente ditos, com destaque para um reforço de cerca de 539 milhões de euros em depósitos a prazo só no mês de março.
A taxa média oferecida pelos bancos aos novos depósitos também tem vindo a subir: fixou-se em 1,48% em maio de 2026, o quarto mês consecutivo de subida. Ainda assim, Portugal continua entre os seis países da Zona Euro com as remunerações mais baixas, face a uma média europeia de 1,96%.
Onde Estão as Melhores Taxas
Apesar da média nacional ser modesta, existem ofertas promocionais bem mais atrativas para quem está disposto a pesquisar e, muitas vezes, a mudar de banco. Entre as taxas mais competitivas disponíveis em agosto de 2026 destacam-se:
- Bankinter — até 5,00% TANB
- Banco BiG — até 3,25% TANB (depósito a 3 meses)
- ActivoBank — até 3,00% TANB
- Banco CTT — até 3,00% TANB
- Banco Carregosa — 2,75% TANB (depósito de boas-vindas)
É importante ler a letra pequena: estas taxas são, na maioria dos casos, promocionais, aplicáveis apenas a novos clientes ou a montantes e prazos específicos. Depois do período promocional, a renovação costuma ser feita à taxa em vigor nesse momento — não à taxa inicial que motivou a subscrição.
O Lado Menos Falado: a Perda Silenciosa de Poder de Compra
Aqui está o ponto que a maioria dos anúncios de depósitos não menciona: quando a inflação é tida em conta, muitos depósitos a prazo continuam a gerar um retorno real negativo.
Em 2026, a inflação ronda os 2,8%, enquanto a taxa média dos novos depósitos se fica pelos 1,36% — uma diferença negativa de cerca de 1,44 pontos percentuais. Na prática, isto significa que quem mantém as poupanças apenas em depósitos a prazo está, ano após ano, a perder poder de compra, mesmo vendo o saldo da conta aumentar.
Este fenómeno não é novo: segundo dados analisados por órgãos de comunicação social, este padrão mantém-se há mais de uma década em Portugal. É, como lhe chamam alguns analistas, uma “perda silenciosa” — fácil de ignorar porque o número na conta bancária sobe, mesmo que o seu valor real esteja a diminuir.
O Que Isto Significa Para Si
Nem tudo neste cenário é negativo. Os depósitos a prazo continuam a ser uma ferramenta valiosa e segura, especialmente para o dinheiro que precisa de estar disponível a curto prazo — como o seu fundo de emergência. Segurança e liquidez, nestes casos, valem mais do que uns décimos de rentabilidade extra.
O problema surge quando todo o dinheiro poupado — incluindo o que se destina a objetivos de médio e longo prazo — fica parado num depósito a render menos do que a inflação. Nesse caso, vale a pena considerar:
- Manter em depósito apenas o valor correspondente ao seu fundo de emergência (3 a 6 meses de despesas)
- Comparar taxas antes de renovar automaticamente um depósito
- Avaliar, para o restante das poupanças, alternativas com potencial de retorno superior à inflação, adequadas ao seu perfil de risco
Uma boa notícia para quem gosta de comparar: o Banco de Portugal está a preparar um comparador oficial de depósitos a prazo, o que deverá facilitar a escolha das melhores condições do mercado nos próximos meses.
Conclusão
A corrida aos depósitos a prazo confirma que os portugueses continuam a privilegiar a segurança acima de tudo — o que faz sentido para o dinheiro reservado a emergências. Mas vale a pena olhar para além do saldo da conta e perguntar: este dinheiro está realmente a crescer, ou apenas a manter-se à tona da inflação?
Reveja as suas poupanças esta semana — pequenos ajustes podem proteger o seu poder de compra nos próximos anos.
